sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

"O sentido mudo"


"Nada é mais memorável do que um cheiro(...)os cheiros detonam suavemente na nossa memória, como minas pungentes escondidas sob a capa de ervas daninhas de muitos anos de experiência. Basta tocar o rastilho de um cheiro, que se dá imediatamente uma explosão de recordações. Uma visão complexa salta da vegetação rasteira".


in "Uma história natural dos sentidos"


Confesso que quando iniciei a leitura deste livro e deparei com o olfacto logo pensei: hummmmm, começam pelo menos importante! ... se a ausência de um dos restantes sentidos pode ser extremamente incapacitadora, desta não direi o mesmo...Erro crasso!

Este sentido é o que me faz sentir com maior violência...



... O Verão da meninice pelo cheiro da terra quente molhada...


...A Infância pelo cheiro das bombocas, das bonecas de borracha...


... As Coisas contra as quais não podemos lutar pelo cheiro intenso de perfume de uma mulher que trabalhava numa Cerci...
...O Natal pelo cheiro dos pinheiros, do musgo, do nevoeiro...


... E o Teu Perfume por ser o Teu.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

o incêndio a chuva a aridez


A seca chegou este ano com a baixa precipitação (entenda-se, este ano é a constatação da impossibilidade). Mas o problema da falta de água ameaça tornar-se estrutural na sociedade portuguesa caso o processo de desertificação, que atinge já 36% do Continente, não seja travado (torna-se estrutural quando debaixo de um qualquer mesmo tecto os olhares não se beijam, nem sequer se cruzam). Os custos económicos da crescente aridez dos solos não estão ainda estimados, mas há já actividades na linha de frente das preocupações agricultura, turismo e sector energético podem sofrer graves consequências (assumo as consequências, anseio o coração de pedra) .





Life is crazy


I need a love
Not games
Not games






segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Sem perfume

Michel Roudnitska (imagem)




E enquanto não vinhas para FINGIRMOS o amor perfumei o meu corpo.

Sábado by night e que noite aquela!

Esta é pra vós...(no meio de desdentados, binho, vôcas lindas e emoção...)

(pchuuuuuuuuuuuuu, calem-se!!!!)






MAIS:

Poesia erótica cantada por Cristina Branco no álbum Sensus…DELICIOSO...

David Mourão Ferreira/Custódio Castelo


Atentado

Rasguei o cabelo ao Sol.
Rasguei os ombros à Lua.
Rasguei os dedos aos rios.
Rasguei os lábios às rosas
E rasguei o ventre aos frutos
E a garganta aos rouxinóis.
Mas ninguém (nem mesmo tu!)
Viu que, em tudo, o que eu rasgava
Era a imagem do teu corpo
Branco,
Firme,
Intacto…nu...

Corpo Iluminado

Assim que te despes
As próprias cortinas
Ficam boquiabertas
Sobre a luz do dia
Sobre a luz....

Os teus olhos pedem
Mas boca exige
Que te inunde...
Toda a luz do dia

Até o teu sexo
Que de negro cintila
Mais e mais desperta
Para a luz do dia

E a noite percebe
Ao ver-te despido
O grande mistério
Que há na luz do dia


David Mourão Ferreira/Custódio Castelo

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Será?


Para matar um grande amor

Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. É aquele momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos, ao mundo, ao universo inteiro. O amor relativiza; a renúncia absolutiza. E não há sentimento mais absoluto do que a solidão em que somos lançados após o derradeiro abraço, o último e desesperado entrelaçar de mãos. Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam. Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar, podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados de amor mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro. Falta-lhes exactamente o Dom da finitude, abrupta e intempestiva. Qualidade só encontrável nos amores que infundem medo e temor de destruição. Não se vive o amor; sofre-se o amor. Sofre-se a ansiedade de não poder retê-lo, porque nossas cordas afectivas são muito frágeis para mantê-lo retido e domesticado como um animal de estimação. Ele é xucro e bravio e nos despedaça a cada embate e por fim se extingue e nos extingue com ele. Aponta numa única direção: o rompimento. Pois só conseguiremos suportá-lo se ocultarmos de nossos sentidos o objecto dessa desvairada paixão. Mas não se pense que esse é um gesto de covardia. O grande amor exige isso. O rompimento é sua parte complementar. Uma maneira astuciosa de suspender a tragédia, ditada pelo instinto de sobrevivência de cada um dos amantes. Morrer um pouco para se continuar vivendo. E poder usufruir daquele momento mágico, embebido de ternura, em que a voz falseia, as mãos se abandonam e cada qual vê o outro se afastar como se através de uma cortina líquida ou de um vitral embaçado.Há todo um imaginário sobre os adeuses e as separações, construído pela literatura e pelo cinema. O cenário pode ser uma estação de trem, um aeroporto (remember Casablanca), um entroncamento rodoviário. Pode ser uma praça ou uma praia deserta. Falésias ou ruínas de uma cidade perdida. Pode estar garoando ou nevando, mas vento é imprescindível. As nuvens devem revolutear no horizonte, como a sugerir a volubilidade do destino. Os cabelos da amada, longos e escuros, fustigam de leve seus lábios entreabertos. Há sutis crispações, um discreto arfar de seios. E os olhos, ah!, os olhos... A visão é o último e o mais frágil dos sentidos que ainda nos une ao que acabamos de perder.Uma grande dor, uma solidão cósmica, um imenso sentimento de desterro. Que se curam algum tempo depois com um amor vulgar, desses feitos para durar uma vida inteira...


Jamil Snege